A partir do dia 28 de fevereiro, quando o papa Bento 16 renunciará ao
cargo, terá início a Sé Vacante, ou seja, o tempo que transcorre de
quando um papa morre ou renuncia até que o sucessor seja eleito.
Bento 16 anunciou nesta segunda-feira (11) que vai renunciar ao cargo.
Esta é a primeira vez em quase seis séculos que um papa renuncia ao
cargo. O último fazer isso foi Gregório 12, em 1415.
Em trecho de sua carta divulgada hoje, o papa escreve:
"Sendo muito consciente da seriedade deste ato, com plena liberdade,
declaro que renuncio ao Ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São
Pedro, que me foi confiado por meio dos Cardeais em 19 de abril de 2005,
de modo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede
de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por
meio de quem tem competências, o Conclave para a eleição do novo sumo
pontífice."
O dia seguinte ao anúncio da renúncia de Bento 16 evidenciou ainda
mais o ambiente de guerra civil no Vaticano que boa parte dos
especialistas aponta como a razão de fundo para a sua decisão, muito
mais que o peso da idade.
O melhor resumo está no editorial de capa do sóbrio "Corriere della
Sera", assinado por ninguém menos que seu diretor, Ferruccio de Bortoli.
Diz que o ato do papa "foi certamente encorajado pela insensibilidade
de uma cúria que, em vez de confortá-lo e apoiá-lo, apareceu, por
diversos de seus expoentes, mais empenhada em jogos de poder e lutas
fratricidas".
Reforça Massimo Franco, do Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos de Londres, autor do premiado "Era uma Vez um Vaticano": a
renúncia do papa seria, para ele, "o sintoma extremo, final,
irrevogável, da crise de um sistema de governo e de uma forma de
papado".
Bento 16 é apontado como um dos culpados por essa crise de sistema de
governo até por quem, como o vaticanista Luigi Accattoli, elogia
aspectos de seu papado: "Bento 16 iniciou uma grande obra de limpeza em
matéria de escândalos sexuais e de finanças vaticanas, mas não conseguiu
restabelecer a boa ordem na Cúria" (o órgão administrativo da Santa Sé,
que coordena e organiza o funcionamento da Igreja Católica).
A pergunta seguinte inescapável é esta: a renúncia será suficiente para
pôr fim ao que Bortoli chamou de "lutas fratricidas" ou, ao contrário,
servirá para acentuá-las de forma que o lado vencedor imponha seu
preferido para ocupar o trono de Pedro?
Paolo Griseri se atreve a responder, em texto para "La Republica",
escolhendo a segunda hipótese: "O que esteve dividido durante o
pontificado de Bento 16 permanecerá dividido no conclave e nos dias que o
precederão".
O mais paradoxal na guerra civil no Vaticano é que ela não se dá mais entre os chamados "progressistas" e os "conservadores".
Estes venceram e reduziram o outro lado à impotência e/ou ao silêncio,
para o que Joseph Ratzinger foi essencial, em seu longo período à frente
da Congregação para a Doutrina da Fé, antiga Inquisição.
Os contornos do novo conflito são mais embaçados, até porque a Igreja
Católica está impregnada de uma cultura do segredo. Mas parece tratar-se
de uma disputa entre o velho e o novo.
Um pouco nessa linha seguiu Juan Arias, o correspondente de "El País" no
Brasil e que, em seu longo período no Vaticano, tornou-se um dos mais
respeitados analistas da igreja no mundo.
Arias minimiza a importância da discussão sobre se seria melhor "um papa
latino-americano, africano, asiático ou de novo europeu e, mais
concretamente, italiano".
Para ele, "importante é que o sucessor de Bento 16 seja capaz de
entender que o mundo está mudando rapidamente e que de nada servirá à
igreja continuar levantando muros para impedir que lhe cheguem os gritos
de mudança que provêm de boa parte da própria cristandade".
É curioso que Arias, um leigo progressista, coincida com o próprio papa,
notório conservador, que, no texto em que anunciou a renúncia,
atribuiu-a à falta de forças para "o mundo de hoje, sujeito a mudanças
rápidas e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé".
É razoável supor que o papa estivesse se referindo a temas como a
necessária limpeza dos pecados que a igreja acobertou (os padres
pedófilos), o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o celibato dos
padres, o papel da mulher na vida da igreja.
Resta saber se um colégio cardinalício feito à imagem e semelhança de
Ratzinger tem, entre seus membros, número suficiente de purpurados
abertos ao mundo capazes de conduzir um dos seus ao trono de Pedro.
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